No momento, você está visualizando Chá de boldo: para que serve e quais são as recomendações

Chá de boldo: para que serve e quais são as recomendações

Você já se perguntou para que serve o chá de boldo, de verdade? A resposta mais comum é que ele alivia desconfortos leves de má digestão, certo?

Só que o boldo ganhou tantas funções ao longo dos anos que essa resposta acabou ficando pequena perto da fama da planta.

Tem quem tome depois de comer demais. Quem usa quando sente o estômago pesado. Quem diga que é bom para o fígado. E ainda quem defenda que quanto mais amargo estiver, melhor.

Mas será mesmo? 

É sobre tudo isso que vamos conversar hoje. 

Por que o boldo sempre aparece quando há problemas de digestão?

Se o almoço pesou e alguém da família sugeriu tomar um chá de boldo, a recomendação não é nenhuma surpresa. 

O uso da planta para solucionar sintomas digestivos existe há gerações e aparece até em referências oficiais sobre plantas medicinais.

No caso do Peumus boldus, conhecido como boldo-do-chile, a Agência Europeia de Medicamentos reconhece o uso tradicional da planta para sintomas de dispepsia e espasmos leves do trato gastrointestinal.

Então, quando você ouve de alguém que o chá de boldo serve para resolver problemas digestivos, é porque a planta realmente tem um histórico de uso ligado a esse tipo de desconforto. 

Só que “boldo” pode ser mais de uma planta (e nem todo mundo sabe disso)

Se tem uma coisa que já aprendemos aqui no universo do chá, é que a bebida pode ser preparada de diferentes formas e de diferentes plantas. E no caso do chá de boldo, não é diferente.

Quando duas pessoas dizem que tomaram a bebida, elas podem ter usado plantas distintas e para diferentes finalidades.

O boldo-do-chile, como já comentamos, é o Peumus boldus. Já aquele boldo bastante presente em quintais e hortas no Brasil pertence à espécie Plectranthus barbatus, conhecido como boldo-brasileiro, boldo-nacional ou boldo-africano.

As duas espécies têm histórico de uso relacionado à digestão, mas não são a mesma planta, sabe?

E por que você precisa entender disso?

Porque estudos, recomendações de uso e contra indicações de uma espécie não podem ser transferidos para a outra. A escolha da planta influencia na forma como entendemos os efeitos da bebida e os cuidados com o consumo.

“Mas chá de bolda funciona mesmo ou é só coisa de vó?”

Para o Peumus boldus, realmente existe histórico de uso tradicional para o alívio de sintomas de dispepsia e de espasmos leves do trato gastrointestinal. Porém, esse reconhecimento não veio de grandes estudos clínicos ou de um amplo conjunto de pesquisas.

Na verdade, a EMA (Agência Europeia de Medicamentos) informa que não foram realizados estudos em pacientes com folhas de boldo capazes de confirmar clinicamente os seus efeitos. 

Então, ainda que a tradição da avó tenha alguma base, temos que entender até onde essa recomendação pode ir. Não dá para transformar uma simples xícara de chá em tratamento para qualquer problema gastrointestinal. 

E o fígado, onde entra na história?

Provavelmente você já ouviu alguém dizer que chá de boldo serve também para o fígado, e eu não vou achar estranho se você disser que também cresceu ouvindo isso. Eu particularmente uso desse ditado quando quero resolver a sensação de peso depois que exagerei em uma refeição.

Essa frase “é bom para o fígado” ficou tão popular que de fato parece uma característica da planta. Só que, ao mergulhar mais no assunto, descobri que ela simplifica demais o tema.

Algumas preparações e compostos do Peumus boldus foram estudados por sua relação com a bile, realmente. Contudo, tomar boldo não equivale a “limpar” o fígado. Também não existe base científica suficiente para dizer que a bebida desintoxica o órgão ou corrige os efeitos de uma má alimentação.

Pessoas com obstrução das vias biliares, cálculos biliares e determinadas doenças do fígado precisam de orientação profissional antes de usar essas preparações. 

Então, dizer que o chá de boldo serve para tratar qualquer problema no fígado não é uma recomendação necessariamente segura. Ainda mais se existe alguma doença hepática ou biliar já diagnosticada.

Você também pode gostar | Chá de hortelã: o que preciso saber para preparar uma boa xícara?

A xícara não precisa ficar intragável para “funcionar”

Chá de boldo e sabor amargo andam lado a lado, e talvez seja por isso que muitas pessoas defendem a ideia de que quanto mais amargo estiver, melhor.

No entanto, o sabor mais intenso não é (nem nunca foi) sinônimo de maior efeito. 

Dependendo da espécie e da quantidade consumida, o excesso de planta na preparação pode (acredite!) aumentar a chance de desconfortos. Ou seja, em vez de ajudar, ela pode acabar irritando ainda mais o estômago.

Referências brasileiras sobre Plectranthus barbatus, inclusive, alertam para irritação gástrica quando utilizado acima das quantidades recomendadas. Ou seja, deixar o chá extremamente amargo não vai transformar a bebida em uma versão “mais potente” e poderosa. 

É mito (e eu também caí nele).

Uma xícara ocasional é uma coisa. Precisar dela sempre é outra.

Você exagerou na refeição, ficou com um desconforto leve e lembra que o chá de boldo pode resolver o problema. Você automaticamente prepara o chá, o toma e sente que o incômodo melhorou. 

Com o alívio, é natural que você comece a associar o boldo à melhora da digestão. 

Entretanto, o que muita gente não fala, é que nem sempre o desconforto digestivo está relacionado apenas àquela refeição específica, sabe?

Existem casos em que as pessoas sentem, praticamente em toda refeição, um peso no estômago, queimação, náusea, dor ou outro incômodo. E isso significa que o problema pode não estar diretamente relacionado ao quanto ela comeu naquele dia específico. 

Nesse caso, o chá de boldo resolve? 

Não o problema em si!

A pessoa precisa descobrir por que comer está provocando isso e não só adiar o desconforto com uma xícara de chá.

Esporadicamente, faz sentido recorrer à bebida para melhorar alguns sintomas? Ok! Mas se o desconforto faz parte da rotina da pessoa, é preciso investigar a origem antes de só apostar no boldo. 

E quem deve ter cautela com o chá de boldo?

As contraindicações e orientações não são exatamente iguais para todos os tipos de planta. No caso do Peumus boldus, há restrições para pessoas com obstrução das vias biliares, colangite, cálculos biliares, doenças do fígado e outros distúrbios biliares que exigem acompanhamento.

Documentos oficiais também recomendam que as mulheres que estão grávidas ou amamentando evitem algumas preparações durante o período.

Pessoas que usam medicamentos continuamente, têm alguma doença diagnosticada ou pretendem consumir a planta com frequência por causa de um sintoma também devem conversar com um profissional antes de transformar o chá em um hábito  

Então, para que serve chá de boldo e em que situação faz sentido tomar?

Quando você sente um desconforto leve e pontual, como peso no estômago, sensação de digestão lenta ou incômodo depois de uma refeição, tudo bem preparar o seu cházinho.

Nessa situação, não há problema em você fazer a bebida, e realmente, ela pode trazer o alívio que esperamos.

Mas é importante lembrar que o chá de boldo não pode ser usado para aliviar sintomas recorrentes. Se em toda refeição você termina com aquela queimação chata, dor, náusea, estufamento ou sensação de que a comida “não caiu bem”, provavelmente não é só uma questão de tomar o chá.

O boldo pode sim entrar em cena quando o desconforto é um evento isolado. Mas, se o incômodo persiste, vale entender o que está por trás do problema antes de preparar mais uma xícara.

Deixe um comentário