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Chá de erva-doce: da semente à xícara

O chá de erva doce tem um daqueles aromas que você reconhece na hora. 

Adocicado, intenso e bastante característico, a gente costuma consumi-lo depois do almoço, no final da tarde ou simplesmente quando queremos uma bebida quente mais docinha.

Só que a erva-doce guarda algumas curiosidades bem interessantes que nem sempre ficam claras na embalagem. A primeira delas é que esse nome pode indicar plantas diferentes. A segunda é que aquilo que chamamos de “sementes” nem sempre são sementes do ponto de vista botânico.

Primeiro: qual erva-doce você tem em casa?

Se a embalagem traz o nome Pimpinella anisum, você está diante da planta também conhecida como anis ou anis-verde. A própria Farmacopeia Brasileira registra “erva-doce” entre os nomes populares dessa espécie. 

Mas talvez você também conheça como erva-doce o Foeniculum vulgare, o funcho. As duas plantas têm aromas parecidos e acabaram dividindo nomes populares em diferentes regiões, embora botanicamente não sejam a mesma espécie.

O que isso significa?

Bom… que duas pessoas podem dizer “preparei chá de erva doce” e terem colocado plantas diferentes na água. Então, sempre que você for comprar a erva embalada, vale dar uma olhadinha no rótulo para saber o que está levando para casa e qual planta vai usar no preparo. 

O aroma que você reconhece começa nos pequenos frutos

Agora olhe para aqueles “grãozinhos” que costumam vir no pacote.

Costumamos chamá-los de sementes de erva-doce, e esse nome provavelmente continuará sendo usado após anos e anos. No caso da Pimpinella anisum, porém, a parte empregada na preparação é o fruto seco da planta e não necessariamente a semente, como costumamos chamar.

É nele que está boa parte daquele perfil aromático que você reconhece assim que abre a embalagem.

Quando esses frutos ficam inteiros, temos uma liberação mais gradual dos compostos aromáticos. Ao amassá-los levemente pouco antes da infusão, você consegue facilitar o contato do conteúdo aromático com a água.

E o sabor? Ele parece mais doce do que realmente é

O cheiro cria uma expectativa bem curiosa: muita gente prova esperando uma bebida doce.

Só que o chá de erva doce não possui açúcar para transmitir essa sensação. O perfil aromático da planta é que traz essa lembrança de doçura.

Quando a quantidade está equilibrada, você sente um sabor suave, perfumado e bastante característico. Mas, se exagerar na erva ou deixa a infusão muito carregada, o mesmo aroma que parecia delicado pode dominar completamente a bebida. 

Quando a água entra em cena, pequenos detalhes mudam a xícara

Para Pimpinella anisum, o Formulário de Fitoterápicos trabalha com infusão e traz como referência de preparação medicinal de 1 a 3,5 g dos frutos para 150 mL de água.

Mas, para quem está preparando a bebida simplesmente para consumo, o principal é não cair na ideia de que uma quantidade enorme de erva deixará o chá “mais gostoso”.

Se estiver usando a erva solta, você consegue ajustar a intensidade. Se preferir sachê, siga a orientação do fabricante e observe a lista de ingredientes, principalmente porque alguns produtos misturam erva-doce com outras plantas.

Por que a erva-doce foi parar justamente depois das refeições?

Você talvez tenha conhecido essa bebida assim: terminou de comer, alguém preparou uma xícara e disse que ajudaria na digestão.

A EMA reconhece o uso tradicional de preparações de Pimpinella anisum para aliviar sintomas de desconfortos gastrointestinais leves acompanhados de espasmos, incluindo estufamento e gases. 

Mas, a avaliação europeia deixa claro que essa indicação se apoia no uso prolongado da planta e não em grandes ensaios clínicos que tenham comprovado o efeito em diferentes grupos de pessoas.

Então, uma coisa é dizer que a erva-doce tem tradição de uso para desconfortos digestivos leves. Outra, é acreditar que ela resolve qualquer dor abdominal, indigestão ou problema intestinal.

E se você toma simplesmente porque gosta?

Ótimo. Nem toda xícara precisa ter uma função terapêutica, não é?

Você pode gostar do chá de erva doce porque o aroma lembra a sua infância, porque prefere uma bebida quente depois do jantar ou simplesmente porque aquele sabor combina com o momento.

A graça de tomar um chazinho está em ele simplesmente ser gostoso e fazer parte de um momento seu. Nem sempre existe um motivo específico para colocar a água para esquentar. 

Quando essa bebida pede um pouco mais de atenção

Uma xícara ocasional e o uso frequente com a intenção de aliviar sintomas não são exatamente a mesma coisa, por isso também vale entender quando o consumo merece um pouco mais de cuidado. 

Nas preparações de Pimpinella anisum avaliadas pela EMA, podem ocorrer reações alérgicas, inclusive em pessoas sensíveis à própria erva-doce ou a outras plantas da família Apiaceae, como aipo, coentro, endro e funcho. O uso medicinal também não é estabelecido para menores de 12 anos por falta de dados.

Durante gravidez e amamentação, a monografia europeia também recomenda evitar o uso medicinal da planta por não haver dados suficientes de segurança. Isso não significa, obviamente, que temos que transformar uma erva comum da cozinha em algo assustador. Mas é preciso separar duas situações.

Se você gosta de uma xícara de vez em quando, estamos falando de consumo alimentar. Agora, se pretende tomar a planta repetidamente porque gases, cólicas, estufamento ou outros sintomas aparecem todos os dias, já existe uma razão para olhar também para a causa desses incômodos.

O que faz uma boa xícara de erva-doce

Já adiantamos que o segredo começa antes da água.

Saber qual espécie você comprou ajuda a entender o que está tomando. Reconhecer que aqueles pequenos frutos concentram o aroma explica por que devemos esmagá-los antes de fazer a infusão. E controlar a quantidade evita transformar uma bebida delicada em um chá intenso demais para o paladar.

O chá de erva doce pode acompanhar uma refeição, entrar naquela pausa no meio da tarde ou simplesmente aparecer porque você gosta do sabor. Você que decide qual momento combina mais com a sua xícara. 

Preparado para fazer um cházinho?

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